ACHANDO-SE SÁBIOS, COMPORTAM-SE COMO LOUCOS
Quem já teve a curiosidade de fazer este interessante exercício: avaliar o seu próprio conhecimento. Eu tive. Sabem como? Procurei inventariar tudo o que não sei, e tudo o que nem sequer poderei saber. O resultado foi espetacular. O que não sei supera tudo o que sei numa tal proporção, que nunca vou conseguir mensurar. Este método permitiu que eu visse com clareza toda a extensão e a profundidade da minha ignorância. Esta foi mais uma bênção, entre muitas, que tenho gratuitamente recebido do Senhor.
Aqueles como eu, alcançados pelo Evangelho, mediante a Graça operada por Deus Pai em Cristo Jesus, por certo não estão imunizados contra todo tipo de tentação. Vez por outra, por exemplo, somos fustigados pela soberba do conhecimento e começamos a engenhar especulações. Confessamos que fomos crucificados, sepultados, ressuscitados e assentados nos lugares celestiais em Cristo Jesus, reconhecemos a onisciência, onipotência e a onipresença de Deus mas, mesmo assim, somos provocados a fiscalizar e até mesmo realizar auditorias na Soberania de Deus para nos certificar de que Ele está fazendo ‘tudo certinho’.
No passo seguinte, imitando o inventor do ponto de interrogação – a antiga serpente, chamada o Diabo e Satanás (Ap 12:9) – começamos a perguntar para Deus: O Senhor realmente criou os céus e a terra do nada? Como? Por que o Senhor chamou somente Abrão de Ur dos caldeus e lhe fez promessas? Por que o Senhor escolheu Saulo de Tarso, um religioso homicida, para ser Paulo o apóstolo dos gentios? Como e por que Noé encontrou graça aos olhos de Iahweh?
Quando lemos nas Escrituras: e nos predestinou para ele, para a adoção de filhos e, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da Sua vontade (Ef 1:5-11), parece que ficamos incomodados com Deus porque Ele nos chamou e nos elegeu para sermos salvos e então, continuamos a perguntar: como Deus consegue fazer essas coisas?
Confesso que já mandei muitos E-mails e Whatsapps para Deus pedindo para Ele me explicar o que realmente significa ‘predestinar’, ‘escolher’, ‘eleger’ e como Ele opera essas coisas. Obviamente, até hoje não recebi qualquer resposta. E o motivo me parece muito simples: Deus não está de plantão para satisfazer minhas curiosidades pseudoteológicas.
“Na Bíblia não existem contradições a não ser aquelas produzidas por nossas interpretações”. Essa frase atribuída a Lutero despertou-me para observar como aqueles que, seguindo as trilhas deixadas por Calvino e Arminius se gastam com esses assuntos, fazendo um enorme esforço para explicar o inexplicável através da vã racionalidade humana. O contorcionismo retórico que fazem é admirável: tentam a todo custo harmonizar paradoxos decorrentes de suas próprias limitações cognitivas. Eles precisam saber de algo muito simples. A Bíblia é autoridade, e não um sistema teológico concebido pelo homem.
Deus tem os seus eleitos? Sim. Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz (1 Pe 2:9). Isto não significa que Deus está trazendo à existência dois grupos de pessoas, ambos exibindo em suas respectivas embalagens duas inscrições distintas: “Destinados ao inferno” e “Destinados para o céu”. Se isto fosse verdade, Jesus não teria ordenado: Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura (Mc16:15). Esta seria uma ordem duplamente desnecessária – pregar para quem já está no inferno e pregar para quem já está no céu! Portanto, a evangelização deve ser levada a todos, uma vez que a Escritura diz: Quem nele crê não será confundido . . .Porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo . . .Mas, como poderiam crer naquele que não ouviram? E como poderiam ouvir sem pregador? (Rm 10: 11-14). Sabemos que Deus nosso Salvador … deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade (2 Tm 2:3-4). Nesta última declaração já está implícito o fato de que nem todos serão salvos: Entrai pela porta estreita, porque largo e espaçoso é o caminho que conduz a perdição. E muitos são os que entram por ele (Mt 7:13). Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! Entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade do meu Pai que está nos céus (Mt 7:21).
Entretanto, ninguém irá para o inferno porque Deus mandou, e tampouco alguém será levado ao céu por condução coercitiva. Aquele que não creu no Nome do Filho único de Deus já está julgado. E o julgamento é que a luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz (Jo 3:17-19).
Mas, será que podemos confessar com a nossa boca que Jesus é Senhor, e crer em nosso coração que Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos e sermos salvos (Rm 10:9) com o coração que herdamos de Adão? O que vemos nas Escrituras, da primeira à última página, é Deus buscando o homem e este, fugindo de Deus. O Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido (Lc 19:10) porque: Não há justo, nem sequer um, não há quem entenda, não há quem busque a Deus (Rm 3:10-11). George Campbell Morgan em sua obra “As Crises de Cristo” diz que o homem no pecado é um “Ignorant of God”. Concluí que a melhor opção em português seria fazer uma tradução literal: ‘Ignorante de Deus’. Em outras palavras: impossibilitado de conhecer a Deus. O mesmo autor prossegue dizendo: Na queda do homem, este, pela afirmação de sua própria vontade, destronou Deus e entronizou a si próprio. Sua inteligência tornou-se limitada por estar separada do conhecimento infinito. De igual modo, a sua emoção por certo tornou-se diminuida e impedida de crescer em sua capacidade, por haver perdido o seu perfeito objeto ao perder-se de Deus. Sua vontade tornou-se uma completa ruína. Indefinidamente o homem tentará assegurar a sua própria superioridade, contudo, não poderá fazê-lo por haver perdido a sua própria e verdadeira fonte de ação – o seu próprio Mestre. A sua vontade degradada está sempre tentando ser autoritária e dominante, mas se verá frustrada, deixada para trás e vencida.
Estar separado de Deus significa o obscurecimento da inteligência, a adulteração da emoção, e a seguir, o aviltamento da vontade. Que possibilidade esse homem natural tem de alcançar comunhão com Deus por seus próprios meios? Esse homem natural, destituído da glória de Deus, com sua vontade desesperadamente corrupta, vitalmente insubmissa e rebelde, pode fazer-se aceitável a Deus? A resposta é um rotundo ‘Não’. Esta possibilidade é a mesma que o homem tem de retroceder ao Jardim do Eden, ‘desengolir’ o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, cumprir o mandamento de Deus, comer da árvore da Vida e exonerar a morte! Pode o etíope mudar a sua pele ou o leopardo suas manchas? Se eles puderem, então vocês poderão fazer o bem, mesmo estando acostumados a praticar o mal (Jr 13:23).
Sabemos que pela graça somos salvos, mediante a fé, e isso não vem de nós, é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se encha de orgulho (Ef 2:8-9). Sabemos também que Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna (Jo 3:16). E esta inigualável revelação dada ao apóstolo João é a mais ampla descrição de fé que poderíamos ter porque, através do homem Jesus é que recebemos a experiência da regeneração, sem a qual não há fé. Crer Nele, neste caso, não pode ser apenas a compreensão racional de um enunciado, porquanto isto não seria suficiente para alguém ser agraciado com a vida imperecível. Na verdade, crer Nele, não perecer e ter a vida eterna, não pode estar dissociado da fé, e esta é uma nova esfera de existência – em Cristo. A obra de Deus é esta: que creiais naquele que por ele foi enviado.
O espírito é o que vivifica; as palavras que eu vos tenho dito são espírito e são vida. Contudo, há descrentes entre vós. Pois Jesus sabia, desde o princípio, quais eram os que não criam e quem o havia de trair. E prosseguiu: Por causa disto, é que vos tenho dito: ninguém poderá vir a mim, se, pelo Pai, não lhe foi concedido (Jo 6: 29 e 63 a 6).
Assim, que contribuição o homem dá para ter fé? Paulo de Tarso vivia pela fé? O relato da conversão de Paulo de Tarso é a mais perfeita revelação da nossa morte e ressurreição juntamente com Cristo. Caindo por terra ele esteve três dias sem ver, durante os quais nada comeu, nem bebeu (Atos 9:9). Decorridos esses três dias ele tornou a ver, mas agora, já não mais era Paulo de Tarso, mas sim, Paulo o apóstolo dos gentios. Paulo de Tarso, com todo o orgulho judaico que o caracterizava, foi extinto. Agora quem vive é Paulo, uma nova criatura, nascida de novo, nascida do Espírito. Agora Paulo está pronto para afirmar: Porque nele (o evangelho) a justiça de Deus se revela da fé para a fé. Porque, mediante as boas-novas, revela-se como Deus torna as pessoas justas à sua vista (Rm 1:17). Agora Paulo também está pronto para afirmar: A vida que eu agora vivo na carne vivo-a na fé Do Filho de Deus que me amou e Se entregou a si mesmo por mim (Versão King James – 1611). Y lo que ahora vivo em la carne, lo vivo em la fé Del Hijo de Dios, el cual me amó, y se entrego a si mismo por mi (Versão Casiodoro de Reina – 1569). E a vida que agora vivo em meu corpo, vivo-a pela mesma fidelidade decorrente da confiança demonstrada pelo Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim (Versão Bíblia Judaica Completa – 1998) – (Gl 2:20)
E o que dizer do ladrão acolhido por Jesus? Ele e seu companheiro há pouco faziam parte do sinistro coral de blasfemos que vociferava insultos contra o Senhor. Jesus: lembra-te de mim quando vieres com o teu reino (Lc 23:42). De que Reino ele estava falando? Considerando que a fé é a convicção de fatos que não se veem, onde e quando o ladrão achou fé para ver esta realidade invisível?
Ainda sobre o ladrão na Cruz, Calvino escreveu: Como era clara a visão dos olhos que puderam ver a vida na morte, a majestade na ruína, a glória na vergonha, a vitória na derrota e a realeza na escravidão! Duvido se já houve, desde o princípio do mundo, um tão brilhante exemplo de fé. Como essa faísca de fé nasceu no coração dele?
A verdade é que tanto Saulo de Tarso quanto aquele ladrão foram igualmente eleitos por Deus antes da fundação do mundo para serem salvos. Ambos foram nascidos de novo e por isso, pela fé, viram o Reino de Deus. O novo nascimento é ‘de cima’ e, portanto, está fora do alcance do aparato cognitivo das criaturas. Jesus explicou direitinho para Nicodemos: O vento sopra onde quer e ouves o seu ruído, mas não sabes de onde vem nem para onde vai (Jo 3:8).
A verdade Divina não está condicionada à soberba racional do homem, mas somente pela própria Palavra infalível de Deus. Nossa submissão incondicional ao Logos Divino é parte indissociável da fé singela como a das crianças. O Deus da eleição, da graça e do amor inextinguível convida todo pecador para a salvação. O Seu amoroso chamamento através do Evangelho é o mesmo para aqueles que o rejeitam.
Charles Haddon Spurgeon (1834-1892) em um sermão sobre 2 Tess. 13:14 afirma: Deus escolhe certos homens para receber a graça especial do Seu Espírito e assim se tornarem participantes voluntários da salvação em Cristo. A eleição é aquela determinação de Deus conduzir o homem às circunstâncias e debaixo de influências que certamente farão com que ele seja salvo.
Os inquiridores deste século podem continuar especulando, os teólogos e interpretes da Bíblia podem produzir livros que vão preencher temporariamente espaços nas estantes das bibliotecas, mas as coisas escondidas pertencem ao Senhor nosso Deus; as coisas reveladas, porém, pertencem a nós e a nossos filhos para sempre, para que ponhamos em prática todas as palavras desta lei (Dt 29:28). O que pode parecer paradoxo para a lógica humana é verdade absoluta na experiência dos salvos. Deus opera no caráter dos seus eleitos o querer e o realizar, segundo a Sua vontade (Fp 2:13), sem destruir a responsabilidade humana, e isso é um milagre que só Ele pode operar. Deus concede a disposição e a realização do que Lhe agrada.
Nada podemos fazer se o Senhor não nos capacitar. Somos nascidos de novo, não somos mais escravos do pecado, vivemos a Vida ressurreta de Cristo em nós, e então percebemos que foi o Senhor quem operou em nós o querer e o realizar, segundo a sua vontade. Algumas verdades que são difíceis de serem explicadas pela retórica dos sábios deste mundo, são a simples experiência daqueles que quando estavam mortos em delitos foram vivificados juntamente com Cristo, e pela graça foram salvos! E com Ele foram ressuscitados e assentados nos céus, em Cristo Jesus (Ef 2: 5:6). Para estes não há dúvidas ou questionamentos; eles foram nascidos de novo e, em sua nova vida, não há tempo, espaço e tampouco qualquer necessidade de ‘compreender’ os métodos pelos quais Deus exercita a Sua soberania sobre tudo e todos.
Os nascidos do Espírito não precisam de esforços para andar em novidade de vida. Eles simplesmente vivem a Vida de Cristo porque foram abençoados com toda sorte de bênçãos nos lugares celestiais em Cristo . . . e escolhidos Nele desde a fundação do mundo, segundo a riqueza da sua graça que ele derramou profusamente . . . conforme decisão prévia que lhe aprouve tomar . . . Nele, predestinados pelo propósito daquele que tudo opera segundo o conselho da sua vontade (Ef 1: 1 a 11). Deus governa a história e as nossas vidas desde o começo, passando pelos meios e até o seu final. Os especuladores deste mundo são aqueles que estão sempre aprendendo, mas que por si mesmos nunca podem chegar ao conhecimento da Verdade. Deus não necessita pedir autorização para realizar a Sua vontade. Deus nunca pediu autorização para começar a boa obra em mim – a qual há de levá-la a perfeição até o dia de Cristo Jesus (Fp 1:6).
Em Atos dos apóstolos lemos sobre a pregação de Paulo aos judeus na Sinagoga de Antioquia. Convidado a pregar mais um sábado, quase toda a cidade reuniu-se para ouvir a palavra de Deus. Os judeus encheram-se de inveja e promoveram perseguição contra Paulo e Barnabé. No final da narrativa, Lucas registra que ao ouvir a proclamação das
boas Novas em Cristo os gentios se alegravam e glorificavam a palavra do Senhor, e todos os que eram destinados à vida eterna abraçaram a fé (Atos 13:48).
A eleição e a responsabilidade humana são dois elementos componentes de uma realidade divina muito mais ampla, que não pode ser discernida por meras especulações humanas. Lembro-me da antiga historinha dos três cegos que foram ao zoológico para conhecer o elefante. O primeiro apalpou a tromba do elefante, e disse que o elefante era como uma grande cobra. O segundo apalpou o rabo, e disse que o elefante era como uma cobra pequena. O terceiro apalpou a barriga, e disse que o elefante era como um enorme barril. Os três saíram do zoológico com um conhecimento parcial do elefante. Assim é a mente humana sobre as operações realizadas pelos desígnios Daquele que é onisciente, onipresente e onipotente; Daquele que nunca foi criado e que nunca terá fim. Para Deus o passado e o futuro são um eterno presente.
A teologia está sujeita a explicações formuladas pela nossa lógica? Racionalizações acabam produzindo extremismos. Os inquiridores podem continuar exercitando suas pretensões soberbas contra Deus, mas exatamente, quem és tu, ó homem, para discutires com Deus? Acaso a obra dirá ao artífice: Por que me fizeste assim?
Por que as nações se amotinam, e os povos planejam em vão? Os reis da terra se insurgem, e unidos, os príncipes enfrentam Iahweh e seu Messias: Rebentemos seus grilhões, sacudamos de nós suas algemas! O que habita nos céus ri – o Senhor se diverte à custa deles. (Sl 2: 1-4).
Tranquilizai-vos e reconhecei: Eu sou Deus (Sl 46:10)
Onde está o argumentador deste século? Deus não tornou louca a sabedoria deste século? Com efeito, visto que o mundo por meio da sabedoria não reconheceu a Deus na sabedoria de Deus, aprouve a Deus pela loucura da pregação salvar aqueles que creem (1 Co 1: 20-21).
E então? Se achar necessário, você pode continuar consumindo o seu tempo e esforço para ‘entender’ plenamente o que a predestinação e a eleição significam na mente de Deus, e como Ele opera essas coisas. Lembre-se que saber explicar o que a eleição e a predestinação significam não é pré-requisito para alguém ser nascido de novo. Na verdade, a Eleição de Deus é a última pá de concreto que definitivamente sepulta qualquer pretensão dos que ainda acham que podem contribuir com seus méritos para que Deus os salve. Nascemos doentes e a cura está na Cruz porque, eram os nossos sofrimentos que ele levava sobre si, nossas dores que ele carregava. Mas nós o tínhamos como vítima do castigo, ferido por Deus e humilhado. Mas ele foi traspassado por causa das nossas transgressões, esmagado por causa das nossas iniquidades. O castigo que havia de trazer-nos a paz caiu sobre ele, sim, por suas feridas fomos curados. Os tempos verbais destas verdades reveladas no capítulo 53 de Isaias estão no pretérito perfeito, expressando uma ação que já foi realizada integralmente. ESTÁ CONSUMADO!
Farão guerra contra o Cordeiro, mas o Cordeiro os vencerá, porque ele é Senhor dos senhores e Rei dos reis, e com ele vencerão também os chamados, os escolhidos, os fiéis (Ap 17: 14).
O que o homem pode fazer para alcançar a redenção em Cristo Jesus?
Pode o homem, com sua vontade irremediavelmente corrupta, voluntariamente voltar-se para Deus?
“O Senhor é o nosso Pastor, e não precisamos de mais nada”.
A Graça do Senhor Jesus esteja com todos! Amém.
Dorival Zemuner