NOSSA UNIÃO COM CRISTO – EFÉSIOS 2.1–10

Marcos Peixoto

NOSSA UNIÃO COM CRISTO – EFÉSIOS 2.1–10
Texto base (ARA)
1 Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados,
2 nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência;
3 entre os quais também todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais.
4 Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou,
5 e, estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo — pela graça sois salvos —
6 e, juntamente com ele, nos ressuscitou, e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus;
7 para mostrar, nos séculos vindouros, a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus.
8 Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus;
9 não de obras, para que ninguém se glorie.
10 Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas.

PARTE 1
Creio que uma das doutrinas mais importantes das Escrituras é a da nossa união com Cristo, ou da nossa inclusão em sua morte e ressurreição.
Sem essa realidade, nenhuma das demais doutrinas pode ser corretamente compreendida, porque tudo o que Deus concedeu ao seu povo foi dado em Cristo Jesus. Não existe salvação, justificação, adoção, santificação ou glorificação fora dele. Tudo o que Deus tem para nós está na pessoa de seu Filho.
É justamente essa verdade que o apóstolo Paulo destaca neste texto de Efésios.
Antes de mostrar quem somos hoje em Cristo, Paulo faz questão de lembrar quem éramos sem Cristo.
Qual era a nossa condição?
O versículo 1 nos diz:
“Estando vós mortos nos vossos delitos e pecados.”
Delito é o desvio da verdade.
Pecado é errar o alvo estabelecido por Deus.
Essa era a nossa condição: estávamos mortos para Deus, condenados à morte eterna, separados da comunhão com Ele e incapazes de produzir qualquer vida espiritual em nós mesmos.
É importante entendermos que Paulo não descreve pessoas espiritualmente enfermas, mas espiritualmente mortas. Um morto não reage, não busca a Deus por iniciativa própria e não possui capacidade de gerar vida em si mesmo. Era exatamente essa a nossa situação antes da ação soberana da graça de Deus.
Cada um de nós possuía uma história diferente. Alguns viveram uma vida marcada por pecados mais visíveis; outros, por pecados menos aparentes aos olhos das pessoas. No entanto, diante de Deus, todos estavam igualmente mortos em seus delitos e pecados.
Nos versículos 2 e 3, Paulo descreve como vivíamos antes da conversão:
“Nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência; entre os quais também todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais.”
Esse é o diagnóstico divino de todo aquele que ainda não possui a vida de Cristo.
1 – Dominado pelo mundo;
2 – Dominado por Satanás;
3 – Dominado pela carne;
4 – Filho da ira;
5 – Sem esperança;
6 – Sem Deus.
Essa era a nossa condição e continua sendo a condição de todo aquele que ainda não nasceu de novo, que ainda não foi unido a Cristo pela graça de Deus.
Não importa se alguém nasceu em uma família estruturada, recebeu excelente educação, possui boa condição financeira ou frequenta uma igreja desde pequeno. Nenhuma dessas coisas pode qualificar uma pessoa para estar diante de Deus.
Todas essas vantagens podem esconder o pecado aos olhos dos homens, mas jamais diante de Deus.
Por isso, quando Deus nos vivificou, concedendo-nos vida juntamente com Cristo e nos dando fé para crer no Evangelho, tudo aquilo em que antes poderíamos confiar perdeu completamente o seu valor diante dele. Toda confiança na carne tornou-se inútil, pois somente Cristo é suficiente para a nossa salvação.

PARTE 2
Até este ponto, Paulo apresentou o nosso diagnóstico: mortos em delitos e pecados, escravos do mundo, da carne e de Satanás, e, por natureza, filhos da ira.
Mas então surge uma das expressões mais gloriosas de toda a Escritura:
“Mas Deus…”
Quando tudo parecia perdido, quando não havia qualquer esperança em nós mesmos, Deus entrou em cena. A salvação não começou com uma decisão humana, mas com a iniciativa soberana do próprio Deus.
Os versículos 4 e 5 dizem:
“Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e, estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo — pela graça sois salvos.”
Observe que Paulo não diz que Deus encontrou pessoas buscando por Ele. Também não diz que viu algum mérito em nós. Pelo contrário, ele reforça novamente que ainda estávamos mortos quando Deus nos deu vida juntamente com Cristo.
Foi Deus quem tomou a iniciativa.
Foi Deus quem amou.
Foi Deus quem vivificou.
Foi Deus quem salvou.
Tudo começou nele, e tudo foi realizado por meio de Cristo.
Quais os benefícios da nossa união com Cristo?
Ao sermos unidos a Cristo, recebemos tudo aquilo que Ele conquistou por nós.
1 – Fomos vivificados.
Estávamos mortos espiritualmente, mas Deus nos deu vida juntamente com Cristo.
2 – Fomos salvos da condenação eterna.
A ira de Deus, que justamente pesava sobre nós, foi satisfeita na cruz de Cristo.
3 – Fomos assentados com Cristo nos lugares celestiais.
Nossa posição diante de Deus mudou completamente. Não precisamos conquistar a salvação por meio de esforços ou méritos pessoais, porque, em Cristo, já fomos aceitos pelo Pai.
4 – Recebemos uma nova vida, que produz boas obras.
As boas obras não são a causa da salvação, mas o resultado inevitável de uma vida transformada pela graça.
5 – Fomos aproximados de Deus.
Antes éramos inimigos; agora, em Cristo, fomos reconciliados com o Pai.
6 – Passamos a fazer parte da família de Deus.
Já não somos estrangeiros nem forasteiros, mas filhos e herdeiros juntamente com Cristo.
7 – Estamos firmados sobre a Rocha.
Nosso fundamento não está em nossas obras, emoções ou desempenho espiritual, mas em Cristo, a Rocha eterna.
8 – Vivemos debaixo da promessa do Senhor.
“De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei.”
Essa segurança não está baseada na nossa fidelidade, mas na fidelidade daquele que prometeu.

Deus é infinitamente rico
Quando Paulo afirma que Deus é rico em misericórdia, ele não está dizendo que esse é o único atributo abundante em Deus. As Escrituras mostram a infinita riqueza da sua graça em diversos aspectos.
Deus é rico em:
1 – Longanimidade (Rm 2.4);
2 – Glória (Rm 9.23);
3 – Graça (Ef 1.7);
4 – Misericórdia (Ef 2.4);
5 – Herança (Ef 1.18);
6 – As insondáveis riquezas de Cristo (Ef 3.8).
Além disso, vemos essas riquezas sendo derramadas sobre o seu povo:
• Rico em misericórdia para o pecador (Ef 2.4);
• Graça abundante para o maior dos devedores (1Tm 1.14-15);
• Compaixão para com o arrependido (Lc 15.20);
• Perdão completo para aquele que confessa os seus pecados (1Jo 1.9).

“Mas Deus…”
Essa pequena expressão muda completamente a história da humanidade.
Mas Deus nos amou de tal maneira que deu o seu Filho unigênito (Jo 3.16).
Mas Deus, sendo justo, lançou sobre Cristo a culpa do seu povo, para que nele fôssemos feitos justiça de Deus (2Co 5.21; Is 53.6).
Mas Deus, sendo misericordioso, aceitou plenamente o sacrifício único e perfeito de Cristo na cruz.
Mas Deus nos concedeu o privilégio de sermos feitos seus filhos, por meio de Cristo (Jo 1.12).
Percebem como essa expressão é extraordinária?
E poderíamos continuar:
Mas Cristo, sendo obediente até a morte, cumpriu perfeitamente a vontade do Pai.
Mas Cristo não permaneceu na sepultura. O Pai o ressuscitou dentre os mortos, e, por sua ressurreição, recebemos uma nova vida.
Mas Cristo nos amou de tal maneira que enviou o Espírito Santo para habitar em nós, consolar-nos, ensinar-nos, lembrar-nos de suas palavras e convencer o mundo do pecado, da justiça e do juízo.

PARTE 3
Os versículos 6 e 7 nos dizem:
“E, juntamente com ele, nos ressuscitou, e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus; para mostrar, nos séculos vindouros, a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus.”
Como aconteceu a nossa união com Cristo?
Estávamos mortos em nossos delitos e pecados, incapazes de nos aproximar de Deus. Então, por sua graça, Deus nos deu vida juntamente com Cristo.
Nossa união com Cristo aconteceu pela ação soberana de Deus. Fomos incluídos na obra realizada por seu Filho. Sua morte tornou-se a nossa morte; sua ressurreição tornou-se a nossa ressurreição; e sua vida tornou-se a nossa vida.
Esse é o coração do Evangelho.
O Evangelho não anuncia apenas que Cristo morreu e ressuscitou. Ele anuncia que, pela graça de Deus, fomos unidos a Cristo, de modo que participamos dos benefícios de sua morte, de sua ressurreição e de sua vida.
Por isso, toda a nossa esperança está nele. Não vivemos para tentar conquistar aquilo que Cristo já conquistou por nós. Vivemos porque fomos unidos àquele que venceu o pecado, a morte e o inferno.
Essa união nos garante uma posição completamente nova diante de Deus.
O que recebemos por estarmos unidos a Cristo?
1 – Fomos crucificados com Cristo.
“Sabendo isto: que foi crucificado com ele o nosso velho homem…” (Rm 6.6)
“Estou crucificado com Cristo…” (Gl 2.19-20)
Nosso velho homem foi crucificado com Cristo. A condenação que pesava sobre nós foi levada por Ele na cruz.

2 – Fomos sepultados com Cristo.
“Fomos, pois, sepultados com ele…” (Rm 6.4)
O sepultamento aponta para o fim definitivo da velha vida. Deus não reformou o velho homem; em Cristo, Ele declarou o fim da nossa antiga condição.

3 – Fomos vivificados com Cristo.
“…nos deu vida juntamente com Cristo…” (Ef 2.5)
A vida espiritual não nasceu em nós por esforço próprio. Ela foi concedida por Deus quando nos uniu ao seu Filho.

4 – Fomos ressuscitados com Cristo.
“…juntamente com ele nos ressuscitou…” (Ef 2.6)
Assim como Cristo venceu a morte, também recebemos uma nova vida. Já não pertencemos ao domínio da morte, mas ao reino do Filho amado.

5 – Somos coerdeiros com Cristo.
“Se somos filhos, somos também herdeiros…” (Rm 8.17)
Tudo aquilo que pertence ao Filho nos é concedido pela graça, porque fomos feitos participantes da família de Deus.
6 – Seremos glorificados com Cristo.
“…se com ele sofremos, para que também com ele sejamos glorificados.” (Rm 8.17)
Nossa glorificação ainda será plenamente revelada, mas sua certeza está garantida porque estamos unidos àquele que já foi glorificado pelo Pai.

Percebam que tudo isso está ligado à nossa união com Cristo.
Não existe uma única bênção espiritual que seja concedida fora dele.
Não fomos unidos apenas aos ensinos de Cristo.
Não fomos unidos apenas ao exemplo de Cristo.
Fomos unidos à própria pessoa de Cristo.
É por isso que Paulo repete tantas vezes a expressão:
“Em Cristo.”
Toda a vida cristã acontece em Cristo.
Toda a nossa aceitação acontece em Cristo.
Toda a nossa esperança está em Cristo.
Toda a nossa segurança está em Cristo.
Toda a nossa herança está em Cristo.
Fora dele, permanecemos mortos em nossos pecados.
Nele, recebemos tudo aquilo que Deus preparou para os seus filhos.
E qual é a nossa posição diante de Deus?
As Escrituras respondem com clareza:
“…para sermos santos e irrepreensíveis perante ele…” (Efésios 1.4).
Deus nos vê em Cristo.
Isso significa que nossa aceitação diante dele não está fundamentada em nosso desempenho espiritual, mas na perfeita justiça de Cristo que nos foi imputada.
Essa verdade não produz acomodação, mas gratidão.
Quem foi unido a Cristo passa a viver de maneira diferente, não para conquistar o favor de Deus, mas porque já foi alcançado por esse favor.
Essa nova vida torna-se visível em todas as áreas da existência.
Na família.
No trabalho.
No trânsito.
Nos negócios.
Na igreja.
No serviço cristão.
Em qualquer lugar, a união com Cristo produz um novo modo de viver.
Nossa vida passa a refletir o caráter daquele que habita em nós.
Assim, as pessoas não enxergam apenas mudanças externas, mas percebem a bondade, a graça e o amor de Deus sendo manifestados na vida daqueles que pertencem a Cristo.

PARTE 4
Nossa união com Cristo não é por mérito humano
Paulo conclui esse trecho mostrando que nossa união com Cristo não aconteceu por causa das nossas obras ou de qualquer mérito encontrado em nós.
Os versículos 8 a 10 dizem:
“Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie. Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas.”
Esse texto destrói completamente qualquer tentativa humana de atribuir a si mesmo algum motivo de glória diante de Deus.
A salvação é pela graça.
A fé é o meio pelo qual recebemos essa salvação.
E até mesmo essa fé não nasce da capacidade humana, mas é dom concedido por Deus.
Não existe espaço para orgulho espiritual.
Não existe espaço para dizer: “Eu fui salvo porque fui melhor que os outros.”
Não existe espaço para dizer: “Eu alcancei Deus porque busquei mais.”
A única resposta correta diante da salvação é a adoração e a gratidão, porque tudo vem dele.
Como Paulo declara:
“Para que ninguém se glorie.”

A graça em nossa vida
A graça não é apenas o ponto inicial da vida cristã. Ela é o fundamento de toda a caminhada com Cristo.
Somos herdeiros da graça da vida (1Pe 3.7);
O Senhor é o doador da graça (Jo 1.16);
Pela graça fomos salvos (Ef 2.8);
Debaixo da graça temos vitória sobre o pecado (Rm 6.14);
Pela graça somos aquilo que somos (1Co 15.10);
Pela graça somos fortalecidos (2Tm 2.1);
Na graça podemos crescer (2Pe 3.18);
Pela graça nosso coração é confirmado (Hb 13.9);
Nosso falar deve ser sempre temperado com graça (Lc 4.22; Cl 4.6).
A vida cristã começa pela graça, permanece pela graça e será completada pela graça.
Algumas verdades que precisamos sempre lembrar
Sei que muitos de vocês já conhecem essas verdades, mas é necessário que constantemente voltemos às bases da nossa fé em Cristo Jesus.
Precisamos lembrar:
1 – Somos salvos pela graça.
Não fomos alcançados por merecimento, mas pela misericórdia de Deus.
2 – Somos salvos mediante a fé.
A fé é o instrumento pelo qual recebemos aquilo que Deus realizou em Cristo.
3 – A fé é dom de Deus.
O próprio Cristo é o autor e consumador da nossa fé.
“Olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus…” (Hb 12.2)
4 – Nenhuma obra nossa, por mais altruísta que seja, pode conquistar a salvação.
Nossas obras jamais poderiam pagar uma dívida que somente Cristo poderia quitar.
5 – Ninguém pode se gloriar pelo fato da salvação.
Toda glória pertence a Deus, porque a salvação é um presente da sua graça.
6 – Agora somos novas criaturas.
Já não somos governados pelo velho homem, mas podemos declarar:
“Logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim…” (Gl 2.20)
7 – As boas obras fazem parte da vida daquele que nasceu do alto.
Elas não são a causa da salvação, mas evidenciam a transformação realizada por Deus.
8 – Essas boas obras foram preparadas pelo próprio Deus.
Não caminhamos por um caminho criado por nós mesmos. Deus preparou as obras nas quais devemos andar.
Conclusão
Quero terminar com mais dois textos.
Romanos 6.11:
“Assim também vós considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus.”
Essa é a realidade daquele que foi unido a Cristo.
Antes estávamos mortos em nossos delitos e pecados.
Agora estamos vivos para Deus.
Antes pertencíamos ao domínio do pecado.
Agora pertencemos a Cristo.
Antes caminhávamos segundo o curso deste mundo.
Agora caminhamos nas boas obras que Deus preparou para nós.
A grande pergunta que fica para cada um de nós é:
Nossa vida demonstra que fomos unidos a Cristo?
Porque a verdadeira união com Cristo não é apenas uma doutrina que afirmamos com nossos lábios; ela é uma realidade espiritual que transforma completamente a maneira como vivemos.
Quem está em Cristo recebeu uma nova identidade, uma nova posição diante de Deus e uma nova esperança para a eternidade.
E toda essa obra começou com uma única expressão:
“Mas Deus…”

20/06/2024 – Marcos Peixoto