ANSIEDADE E SUAS CAUSAS: UM OLHAR À LUZ DAS ESCRITURAS.

Marcos Peixoto

ANSIEDADE E SUAS CAUSAS: UM OLHAR À LUZ DAS ESCRITURAS

Não andeis ansiosos por coisa alguma Filipenses 4.6a

A ansiedade é uma daquelas aflições silenciosas que parecem apertar o peito sem hora marcada. Muitas vezes, ela não se apresenta com um rosto claro, mas invade os pensamentos com medos, suposições e incertezas. A mente corre para o futuro, o coração perde a paz, e os olhos não encontram repouso. Não importa se o dia foi calmo ou agitado — dentro dela, há uma tempestade. E o pior é que nem sempre ela sabe por quê.

Charles Spurgeon, um homem que lidou com profundos episódios de tristeza e ansiedade ao longo de sua vida, certa vez disse: “A ansiedade não esvazia o amanhã de suas aflições, mas apenas esvazia o hoje de sua força.” Ele sabia, por experiência, que esse peso invisível podia imobilizar até mesmo o cristão mais devoto. Mas ele também apontava para uma direção segura: Cristo.

A ansiedade, no fundo, revela uma luta interna por controle. A pessoa quer saber o que vai acontecer, quer garantir que nada sairá do seu planejamento. Deseja evitar a dor, antecipar o perigo, proteger os que ama e se proteger. Porém, a vida nunca esteve em suas mãos, mesmo quando ela pensa que está. O Senhor Jesus disse em Mateus 6:27: “Qual de vós, por mais ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado à sua estatura?” Essa pergunta de Jesus não é retórica apenas — ela é um chamado à realidade. A ansiedade, na verdade, é inútil. Não resolve, não previne, não fortalece. Só desgasta.

Spurgeon dizia que o cristão vive entre dois mundos: o visível, que pressiona, e o invisível, que sustenta. A ansiedade costuma surgir quando o primeiro parece mais real que o segundo. Quando os boletos se acumulam, quando o diagnóstico médico chega, quando o casamento se esfria, quando os filhos se desviam ou quando a solidão se instala — nesses momentos, o visível grita. E é aí que a fé é provada.

A raiz da ansiedade, muitas vezes, é a incredulidade. Isso pode soar duro, mas é bíblico. Em Mateus 6, Jesus repete algumas vezes: “Não andeis ansiosos” (v.25, v.31, v.34). E Ele encerra esse ensino com uma instrução clara: “Buscai, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.” (Mateus 6:33). Quando alguém se entrega à ansiedade, é como se dissesse, mesmo que sem palavras: “Deus pode cuidar de algumas coisas, mas não de tudo.” Ou ainda: “Ele é bom, mas talvez não seja o bastante.”
Esse tipo de pensamento revela um coração dividido. Em Tiago 1:6-8, a Palavra afirma que aquele que duvida é como a onda do mar, que vai e vem, instável. E a ansiedade muitas vezes é fruto desse coração instável, que tenta crer, mas ainda está agarrado ao medo, ao controle ou à desconfiança.
Outro fator que alimenta a ansiedade é o excesso de ocupação com o futuro. É claro que planejar é bíblico e responsável. Mas planejar em excesso, ou viver antecipando problemas que nem existem, é um fardo desnecessário. Spurgeon, em um de seus sermões, advertiu: “Não crie preocupações com os tempos que ainda não chegaram. Deus dará graça para hoje, e dará graça para o amanhã quando o amanhã chegar.”

Isso ecoa Lamentações 3:22-23: “As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; renovam-se cada manhã.” O que se percebe aqui é que Deus não entrega hoje a graça de amanhã. Ele não promete forças acumuladas para o futuro inteiro, mas misericórdia diária, suficiente. Como o maná no deserto: caía na medida certa, dia após dia. Guardar para o dia seguinte fazia apodrecer. Assim também é a graça de Deus — sempre fresca, sempre fiel, mas sempre para hoje.

Há ainda a causa da culpa. Muitos vivem ansiosos por causa de pecados não confessados, feridas não tratadas ou laços com o passado. A alma carrega culpas antigas, decisões erradas, promessas quebradas, e isso corrói por dentro. O salmista Davi passou por isso. Em Salmo 32:3-4 ele confessa: “Enquanto calei os meus pecados, envelheceram os meus ossos pelos meus constantes gemidos todo o dia.” Mas ele segue: “Confessei-te o meu pecado… e tu perdoaste a iniquidade do meu pecado.” (v.5). A ansiedade muitas vezes exige mais do que um calmante — ela clama por arrependimento, confissão, reconciliação com Deus.

Por fim, existe a ansiedade provocada por uma vida sem descanso espiritual. A rotina pode ser agitada, as exigências muitas, e a alma, exausta. Há quem sirva na igreja, cuide da família, trabalhe com afinco, mas esquece de estar aos pés de Jesus. Como Marta, que corria de um lado para o outro, aflita, ansiosa e agitada, enquanto Maria escolhia a melhor parte (Lucas 10:41-42). Às vezes, a ansiedade é sinal de que a alma precisa parar, ouvir, sentar-se aos pés do Senhor.

Mas o que fazer, então? O apóstolo Paulo nos oferece uma resposta clara e prática em Filipenses 4:6-7: “Não andeis ansiosos por coisa alguma; antes, em tudo sejam os vossos pedidos conhecidos diante de Deus pela oração e súplica, com ações de graças. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus.” Aqui está o caminho: oração sincera, súplica humilde, gratidão no coração. E, como fruto, paz. Não uma paz natural, explicável, mas uma paz que guarda o coração e a mente — exatamente onde a ansiedade tenta agir.

A ansiedade não é apenas um problema emocional. É uma questão espiritual. E o tratamento começa com a verdade. A verdade de que Deus está no controle. A verdade de que Ele é bom. A verdade de que a cruz já venceu o medo. A verdade de que Ele se importa, sustenta e conduz.
Spurgeon afirmou: “Deus está conosco em todas as tempestades, e nenhuma delas sopra sem que Ele permita.” Isso não significa ausência de problemas, mas certeza de companhia. E essa certeza é o que tira o peso do coração.

Reflexão prática:
Se ela estiver ansiosa, que pare por um momento. Que feche os olhos e se pergunte: “O que estou tentando controlar que não me pertence?” Que ela se examine diante de Deus e exponha tudo — medos, expectativas, pecados, frustrações. Que ela ore com sinceridade, mesmo sem palavras bonitas. Que se alimente das Escrituras, mesmo que em poucos versículos por dia. E que, acima de tudo, descanse. Não num sofá ou numa viagem, mas na certeza de que “os que esperam no Senhor renovarão as suas forças” (Isaías 40:31). A ansiedade não será vencida com técnicas, mas com fé. Fé real, viva, fundamentada em Cristo. Porque é nEle que está a verdadeira paz.

16/06/2026