Eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de linguagem ou de sabedoria. Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado. E foi em fraqueza, temor e grande tremor que eu estive entre vós. A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder, para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria humana, e sim no poder de Deus.
Essa carta aos santos em Corinto foi escrita por volta do ano 55 d.C. Paulo havia fundado essa igreja em sua segunda viagem missionária, cerca de 5 anos antes. Corinto era uma cidade grega muito importante, rica e extremamente corrompida moralmente. Era um centro comercial estratégico, com dois portos, e abrigava diversos cultos pagãos — o mais famoso acontecia no templo da deusa Afrodite, onde mil prostitutas cultuais serviam. Por isso, a cidade era associada à devassidão.
A igreja de Corinto era composta por gentios e judeus convertidos, muitos de origem humilde, mas também havia alguns mais abastados. Era uma igreja com muitos dons espirituais, mas cheia de problemas graves, como: divisões internas e facções (1.10-17); imoralidade sexual, inclusive incesto (5:1); litígios entre irmãos levados ao tribunal secular (6.1-8); abusos nos cultos e nos dons espirituais (capítulos 11 a 14). Havia, ainda, dúvidas sobre o casamento, alimentos sacrificados a ídolos e a ressurreição dos mortos.
Essa carta é muito atual, pois vivemos em um mundo corrompido. Dentro das igrejas do século XXI ainda existem muitos erros doutrinários, luta por poder, divisões, falsos mestres e tantos outros problemas.
Nela, Paulo mostra que a verdadeira sabedoria está na cruz de Cristo — e não na sabedoria do mundo. Ela foi escrita com esta intenção: corrigir e ensinar sobre a verdadeira sabedoria cristã. Dessa forma, Paulo não usou retórica humana nem sofisticação intelectual para se comunicar, mas depositou toda confiança no poder do Espírito Santo.
O foco da pregação de Paulo não era em conhecimento humano ou em falar o que as pessoas gostariam de ouvir, muito menos em acusar ou proteger pessoas ou seus atos. Paulo vai direto ao ponto, a essência do Evangelho é Cristo crucificado.
Eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de linguagem ou de sabedoria (v.1). Paulo evita usar uma linguagem rebuscada ou filosófica que impressione o homem natural. Ele era um homem culto, aprendeu aos pés de Gamaliel, um dos homens mais sábio entre os judeus e foi um discípulo exemplar, pois sua vida era irrepreensível do ponto de vista humano. (Abra a sua bíblia em Filipenses 3.4-8).
O foco da pregação não está em argumentos humanos que geram orgulho ou confusão, mas no poder de Deus e na revelação do Espírito Santo. Quem o homem é, para onde ele vai em seu estado de pecado e qual a solução para que ele seja levado ao verdadeiro arrependimento. Nenhum pregador, por mais eloquente ou sábio que seja, pode gerar essa nova vida, tampouco é possível conquistá-la por méritos. Somente a graça e a misericórdia de Deus é que podem alcançar o homem perdido.
Podemos extrair a primeira lição: não é nossa eloquência, conhecimento, status social, argumentação que vão levar as pessoas a mudarem de vida, mas a pregação do Evangelho, que é a morte e a ressurreição de Cristo. Mais exatamente, que o nosso velho homem foi crucificado com Cristo, está morto, sepultado e, na ressurreição, ganhamos a nova vida, uma vida que está sendo santificada dia a dia, que chamamos de salvação da alma.
Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado (v.2). A pregação central de Paulo é a pessoa e obra de Jesus Cristo, especialmente a cruz, pois foi ali que o velho homem morreu, foi sepultado e, na ressurreição, ganhou uma nova vida. (Rm 6.6).
A cruz que, para o mundo, é loucura 1 Cor 1.18, é o centro da mensagem que salva. Muitos rejeitam essa mensagem, inclusive dentro das igrejas, mas, independentemente, da rejeição do homem, ela é o motivo pelo qual somos unidos a Cristo: i) na cruz, houve a nossa justificação; ii) na cruz, o nosso pecado foi pago, e o inimigo foi derrotado, ele não tem mais poder sobre a morte, foi destronado; iii) na cruz, o velho homem foi morto e a inimizade contra Deus foi desfeita.
Paulo rejeita qualquer conhecimento ou sabedoria que desvie desse foco. E nós, também, não podemos ser iludidos, enganados com pregações humanistas, que prometem prosperidade, cura, vida boa… Não existe nada de bom para o homem fora de Cristo.
E foi em fraqueza, temor e grande tremor que eu estive entre vós (v.3). Paulo não prega com confiança na sua própria força, mas reconhece sua fragilidade humana. Isso revela, para cada um de nós, humildade e dependência total de Cristo, seja no ministério ou em qualquer atividade em nosso dia a dia.
O “temor e tremor” a que Paulo se refere falam da reverência diante da responsabilidade de transmitir a verdade de Deus, seja no púlpito ou para as pessoas que convivem conosco, e isso começa no nosso lar, com os vizinhos, no trabalho, no trânsito, na igreja, em todo lugar, em todo tempo. Lembre-se: Mas àquele a quem muito foi dado, muito lhe será exigido; e àquele a quem muito se confia, muito mais lhe pedirão. Lucas 12:48b
A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder (v.4).
Paulo destaca que o que sustenta sua pregação é a ação do Espírito Santo e não a eloquência humana. A verdadeira eficácia do Evangelho está no poder sobrenatural de Deus para convencer e transformar vidas. A linguagem pode ser simples, mas é revestida de poder divino. Não é o seu ou meu conhecimento das Escrituras. Não é a nossa atitude, postura de voz, português correto (claro, tudo isso é bom), mas é o que Cristo fez primeiramente em nossa vida (na minha vida). Quando falamos por experiência própria há empatia, seja no púlpito ou individualmente, mas o convencimento é somente obra do Espírito Santo de Deus.
Para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria humana, e sim no poder de Deus. Paulo quer que a fé dos corintos seja firme e segura, não baseada em argumentos ou conhecimento humano, que são instáveis e transitórios. A fé verdadeira repousa no poder de Deus que age no coração e na vida dos filhos. Se pensamos que podemos apoiar a fé em coisas deste mundo, estamos totalmente enganados. Primeiramente, não temos fé, a um dom de Deus, e o autor é Jesus Cristo. Além disso, nada, neste mundo, pode levar o homem a Deus. Jesus Cristo é o único mediador entre Deus e os homens (I Tm 2.5).
Mas como podemos colocar em prática tais ensinamentos? Como isso pode ser real em nosso dia a dia? Quero enumerar alguns pontos, mas saiba que não são regras, não são normas, entretanto nos ajudam a permanecer na Verdade. Gosto muito das palavras do salmista quando diz: Firma os meus passos na tua palavra, e não me domine iniquidade alguma. Lâmpada para os meus pés é a tua palavra e, luz para os meus caminhos. Salmos 119.105 e 133.
1. A Mensagem: seja individualmente, em pequenos grupos ou mesmo no púlpito, é preciso ter, como centro, Jesus Cristo crucificado. Creio que a visão da nossa comunidade reflete esse cuidado: conhecer pessoalmente a Cristo crucificado, sepultado e ressurreto, e torná-lo conhecido em todo lugar, por meio da amorosa graça do Pai;
2. Humildade ao anunciar o Evangelho: não podemos confiar em nossa capacidade humana, mas reconhecer nossa fraqueza e depender do Espírito Santo. Ao anunciar o Evangelho, a glória sempre será de Cristo. Somos apenas servos. Lembre-se: Jesus, o criador de todas as coisas, lavou os pés dos discípulos;
3. Confiança e dependência: o Espírito Santo tem a suprema missão: Quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo: do pecado, porque não creem em mim; da justiça, porque vou para o Pai, e não me vereis mais; do juízo, porque o príncipe deste mundo já está julgado. João 16:8-11. Essa missão é dEle;
4. Uma Fé Sólida: a fé verdadeira não é uma questão de filosofia ou inteligência, mas de esperança e confiança em nossa união com Cristo. Ele é o autor da fé. Não temos fé em nós mesmos. Não temos estoque dela para emprestar a outros. Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus. Efésios 2.8. Peça a Deus a fé para crer e proclamar;
5. E um alerta: a missão de anunciar o Evangelho foi dada a todos os que são filhos de Deus. O Evangelho é simples, a mensagem é objetiva. A Palavra de Deus não volta vazia. O poder transformador não está em quem fala, mas na Palavra de Deus. Sim, é muito bom ter uma linguagem correta, sem vícios, sem buscar impressionar pessoas. Todos que nasceram do alto podem anunciar o Evangelho, mesmo com suas fraquezas e limitações.
Cabe aqui ainda uma última consideração: quem ouve também precisa ter cuidado. As palavras sábias, as falas mansas, as mensagens eloquentes, e muitos outros enganos estão encobrindo um falso evangelho e falsos mestres. Ouça com cuidado e atenção qualquer que seja a pregação. Fuja do humanismo, no qual o homem é o centro, e Cristo está de fora.
O Evangelho não depende da oratória, muito menos de técnicas ou sabedoria humana, mas da revelação da obra que Cristo realizou na cruz. Ele morreu e nos levou a morrer com Ele. Foi sepultado, e o velho homem com Ele. Mas Jesus Cristo ressuscitou e nos deu uma Nova Vida. Assim, como Paulo, necessitamos depender totalmente de Deus, para que nossa fé esteja firmada unicamente na pessoa de Jesus Cristo. Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado.
Marcos Peixoto – 24/08/2025